Na avaliação do ex-secretário de Saúde Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, uma parte das mulheres que deixam de fazer mamografia não se afasta do exame por medo ou desinformação, mas por falta de tempo. Trabalhadoras com jornada fixa, muitas vezes acumulando o cuidado da casa e da família, encontram serviços de saúde que funcionam justamente no horário em que não podem sair. Alguns erros recorrentes na organização do rastreamento ampliam essa barreira.
Agenda que só funciona em horário comercial
O primeiro erro é concentrar o atendimento em dias úteis, das oito às dezessete horas. Para quem trabalha no comércio, na indústria ou em serviços com escala rígida, ir à unidade básica para pegar o pedido e depois ao serviço de imagem para fazer o exame pode significar perder dois turnos de trabalho.
O Ministério da Saúde criou o programa Saúde na Hora, que apoia municípios na ampliação do funcionamento das unidades básicas para o período noturno e para o horário de almoço. Segundo Vinicius Rodrigues, estender também o horário dos serviços de mamografia, ou ao menos reservar turnos alternativos, é o complemento necessário para que a ampliação da atenção primária alcance o rastreamento.
Várias idas para um único exame
O segundo erro é exigir que a mulher compareça diversas vezes: uma para a consulta, outra para agendar, outra para o exame e mais uma para buscar o resultado. Cada deslocamento representa nova falta ao trabalho e aumenta a chance de desistência.
Fluxos mais simples reduzem o problema. Pedido feito por protocolo de enfermagem, agendamento por telefone ou aplicativo, resultado enviado diretamente à unidade de saúde e comunicação por mensagem evitam idas desnecessárias e tornam o percurso mais compatível com a rotina de quem trabalha.
Desconhecimento do direito à ausência
Muitas trabalhadoras não sabem que a legislação trabalhista garante o direito de faltar ao serviço sem desconto no salário para realizar exames preventivos de câncer. Desde 2018, a lei permite a ausência de até três dias a cada doze meses, mediante comprovação, o que inclui a mamografia.
A falta de divulgação faz com que o direito seja pouco utilizado. Na leitura de Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, campanhas de rastreamento deveriam incluir essa informação de forma clara, porque o receio de perder parte do salário ou de criar atrito no emprego pesa na decisão de adiar a mamografia.
Pouca articulação com empresas e sindicatos
O quarto erro é tratar o rastreamento como responsabilidade exclusiva da rede de saúde. Empresas com grande número de funcionárias, sindicatos e associações de classe podem ser parceiros importantes na divulgação e na organização de agendas coletivas.
Experiências de unidades móveis em locais de trabalho, convênios para liberação organizada das trabalhadoras e ações conjuntas com serviços de saúde ocupacional ampliam o alcance do rastreamento sem sobrecarregar a rotina das mulheres. Para as empresas, a parceria também traz retorno, já que o diagnóstico precoce reduz afastamentos longos e tratamentos mais complexos.
Sábados e turnos alternativos como estratégia
Abrir serviços de imagem aos sábados, mesmo que uma vez por mês, e oferecer horários no início da manhã ou no fim da tarde são medidas de custo relativamente baixo e grande impacto na cobertura do rastreamento. Mutirões em fins de semana costumam ter boa adesão justamente entre mulheres que trabalham, desde que divulgados com antecedência.
A organização da agenda precisa partir da realidade da população atendida. Conforme avalia Vinicius Rodrigues, um programa de rastreamento eficiente se adapta ao horário das mulheres, e não o contrário, e essa adaptação é uma das formas mais diretas de aumentar a cobertura entre quem mais tem dificuldade de interromper a rotina para cuidar da própria saúde.